29 de Novembro de 2009

268

(para a Fábrica de Histórias e em especial para ti, minha querida H.)





- Queres saber uma coisa?
- O quê?
- Faz hoje anos uma menina contadora de histórias.
- Quantos?
- Sei lá. Achas que se pergunta a idade duma menina?
- Que mal tem?
- Quando fores grande vais perceber.
- É uma menina grande?
- Sim.
- E conta histórias giras?
- Sim, mas põe os outros a contá-las.
- Vamos nós contar-lhe uma história?
- Era uma vez...
- Duas e três.
- Parabéns, parabéns, parabéns.
- Não!
- Não?
- Está tudo desafinado.
- Achas que ela ouve?
- Sabes uma coisa?
- O quê?
- Não percebes nada de meninas.
- E tu não sabes contar histórias.




Estado de pintura: Skye - Jamaica Days

26 de Novembro de 2009

267

Vou ouvir esta música até enjoar.

Quando a ouço, imagino-me deitada na minha praia sobre a areia molhada, devia ter cinco ou seis anos e os primeiros raios de sol da manhã a acariciarem-me a pele torrada. Ao meu lado o pequeno balde que não largava e que durante o dia enchia de amêijoas que apanhava nos meus longos e solitários passeios à beira-mar.


Não voltei a África mas devo lá ter deixado alguma coisa para além das bonecas, minhas companheiras inseparáveis das salas de aulas inventadas. A minha velha e austera professora primária, a quem eu imitava e detestava, já terá dado sonoras risadas lá do sítio onde deve estar que felizmente desconheço, por me ter silenciosamente incutido este bichinho que cedo nasceu comigo, de andar de caneta vermelha e dedo em riste a apontar erros e pregar sermões.


Os três boletins amarelecidos de passagem de classe do Colégio de Nossa Senhora dos Anjos, religiosamente guardados, vieram há uns meses parar às minhas mãos e deles se destacam o meu Comportamento porque do Aproveitamento nada consta. Três letrinhas apenas mas que deixavam a minha mãe feliz. Numa viagem a Portugal e de estadia mais prolongada, o primeiro período de um ano lectivo fora aqui concluído. De regresso ao meu país natal, a Madre Superiora, directora do Colégio, tivera a infeliz ideia de me questionar pelos meus gostos sobre o outro onde estivera.


Muito melhor – as outras blasfémias proferidas na altura ainda hoje me causam embaraço, o mesmo que causou à minha mãe que nem um buraco tivera para se enfiar. Talvez por isso, o quarto boletim não existe, ela deve-o ter rasgado.


A partir daqui nada mais foi igual. A primeira vez que pisei pés num liceu e como colegas de carteira passei a ter Maneis em vez das só e habituais Marias, a minha mãe passou a ter dores de cabeça acrescidas já às então habituais. A campainha da porta e o som estridente do telefone da nossa pacata casa nunca mais tiveram descanso, o meu gosto pela leitura era pretexto para investidas que ela dificilmente controlava e que a mim me divertiam. Tinha largado o balde e perdidamente apaixonada por um Rui que nunca mais na vida vira, pegou em mim e juntas fizemos viagem de muitas e longas horas para outro país africano, com a casa às costas ou o pouco que dela restava, para nos juntarmos ao meu pai e mana que lá nos aguardavam. Deste inferno de curta duração, fiquei a falar outra língua que não o Português. Nada mais a registar. E regressei definitivamente a Portugal.


Depois daquele, outros Rui(s) entraram e saíram da minha vida. Diferentes passeios se fizeram à beira-mar. Os peixes agora são outros e não há amêijoas que vislumbre, nem cheiro a maresia que me console. Mas colou-se-me um tal odor de canetas, cadernos e demais materiais que não há perfume de marca ou da loja dos chineses que o disfarcem. E vem este relambório todo porque sofro ultimamente de enjoos e se enjoar desta música talvez com este cure o outro que não provém de nenhum ciclo menstrual em atraso, tampouco de mal estar vesicular.




Estado de pintura: Skye - Jamaica Days

25 de Novembro de 2009

266

Pegou-lhe nas mãos, beijou-as e ficou a admirá-las.
- Gosto das tuas mãos.
Idália sorriu.
O olhar dele costumava seguir cada gesto seu.
Ele raras vezes falava, ficava assim contemplando-as como se as quisesse levar no seu olhar.
Ela passou as mãos pelos cabelos dele, ele fechou os olhos e ela acariciou-lhe o pescoço.
- Continua.
Em gestos suaves e lentos Idália percorreu cada pedaço do seu corpo, deixando em cada um deles o sabor dos seus beijos e o cheiro da sua pele.
- Não pares, a minha pele precisa da tua.
Voltou a sorrir.
A mão dela agarrou o desejo dele e amaram-se.



Estado de pintura: Skye - Jamaica Days

23 de Novembro de 2009

265

Enquanto a Idália chora, tadinha, pergunto-me, onde raio estão as votações para aqueles maravilhosos contos de fadas lá na Fábrica de Histórias? Agora que pensava veladamente (leia-se descaradamente) subornar todos os visitantes/comentadores destas pinceladas e descabelar-me toda para me divertir mais um bocado, a Gerenta da Fábrica, tira-me esse gostinho? Está mal. Vou já pedir livro de reclamações e queixar-me ao Sindicato dos contos, histórias e demais palavras, quiçá, convocar manifestação e levar os Sete Anões, o Lobo Mau, o Olhos de Sapo e Língua de Rã comigo e juntos gritaremos palavras de ordem. Ainda não sei quais são mas até lá invento.



Adenda: E pronto, estão abertas as votações. Escolham três histórias, desde que uma delas seja a minha que não ando aqui a queimar pestanas e a prometer-vos peru para a ceia de Natal em vão. Ide. Ide todos lá. E não venham cá com desculpas, ai que não me apetece ler, ai que ando tão cansado(a), ai que não tenho tempo, porque não ando com muita paciência para tretas.



Nota: os comentários lá deixados terão de ser ANÓNIMOS!




Estado de pintura: Skye - Jamaica Days

22 de Novembro de 2009

264

Passou meses e meses que quis chorar. Sentia um aperto tão grande que sabia um dia quando começasse não pararia de o fazer. Agora deita-se e as lágrimas correm-lhe cara abaixo e nem sabe porquê. Chora por tudo e por nada, pelos Elas e Eles deste mundo, os que conhece e os que jamais virá a conhecer. Sabe lá Idália porque se sente inquieta. Chora pelos meses e meses que não o conseguiu fazer.

- Fala comigo. Assim não te consigo ajudar.

Falar de quê? Que tem lágrimas em atraso e que elas irrompem sem pré-aviso ou permissão?
Se se sente aliviada? Não. Ainda não chorou o suficiente.




Estado de pintura: Skye - Jamaica Days

20 de Novembro de 2009

263

Moral da história: Há sempre um Olhos de Sapo e Língua de Rã que a sabe toda.

A partir de hoje ao fim do dia e até domingo, estarei lá para os lados do Caraças-mais-velho, num retiro espiritual. Mas quinze dias eram os meus anseios. Com feiticeiro controverso e dado a métodos pouco ortodoxos até eu faço santas peregrinações e recheio o peru de Natal. Mas ainda vou a tempo, Natal é só em Dezembro e este fim de semana começo os preparativos.
Peru com banana é divinal.
Depois lá para as alturas da Páscoa darei início a um período de abstinência e de meditação acompanhado por orações e cânticos, (Hossana! Hossana! Hossana nas alturas!) enquanto calcorrearei toda a via sacra. Mas até lá posso pecar.



Estado de pintura: The Pussycat Dolls - Sway

17 de Novembro de 2009

262

(esta é a minha contribuição para a Fábrica de Histórias que me vai mandar para o caraças-mais-velho!)

Era uma vez uma princesa que vivia em Massaboa, terra onde os calores e os beijos se confundem com o cheiro das cebolas e dos alhos e o arfar dos amantes com os gritos estridentes das crianças. Um reino e dos bons, de paredes cinzentas e pecados negros, que fica lá para os lados do caraças-mais-velho, onde vivia também um príncipe.

A princesa, de seu nome Boa Com’ó Milho, era insuportável todos os santos dias e nos outros também e lambuzava-se em atum com massa e muito alho, um dos seus pratos preferidos. O príncipe, grande apreciador de tâmaras*, era conhecido pelo nome de Dedos de Luz, talvez por causa das ditas cujas energéticas ou pela sua especial e bendita pontaria para escolher princesas.

O senhor seu pai e rei de Massaboa, criatura insignificante e careca mas muito bonzinho, vivia preocupado com o futuro do reino e a atracção fatídica de seu filho por Boa Com’ó Milho que ao pequeno-almoço devorava príncipes ingénuos e incautos.

A criatura careca já havia consultado todos os feiticeiros do reino e arredores, excepto um, e não havia feitiço que modificasse a princesa que trazia Dedos de Luz embeiçado. A excepção, Olhos de Sapo e Língua de Rã, era feiticeiro muito controverso pelos métodos pouco ortodoxos que utilizava.

O rei, já desesperado, resolvera convocar extraordinário concílio, juntando padres, beatas e afins com um único ponto de ordem de trabalhos:

Ponto um: Como tornar Boa Com’ó Milho na mais santa e doce das criaturas?

O concílio fora anulado por falta de comparência dos convocados que enviaram missiva comunicando ao rei não possuírem poderes para tão difícil tarefa.

É aqui, neste entremeio desta curta narrativa sem eira nem beira, que entra em acção Olhos de Sapo e Língua de Rã, feiticeiro afamado mas muito contestado.

- Não é fácil – adiantara logo ele quando chamado ao Rei– mas não é impossível. Trazei-me Boa Com’ó Milho e com ela permanecerei durante quinze dias. Devolvê-la-ei doce como o mel e santa como a Madre Teresa de Calcutá.

E assim foi. Ainda hoje se desconhecem métodos usados. Boa Com’ó Milho continua boa, apreciadora de atum com massa e muito alho, ao pequeno-almoço trocou príncipes por frangos, dos tenrinhos, recheados com mel e não há criatura no reino que não tivesse conhecido as suas santas peregrinações a outros reinos em busca doutros frangos com o mesmo recheio mas sempre e cada vez mais tenros.

Dedos de Luz continua embeiçado, idiota e feliz. Casaram e tiveram muitos principezinhos, um de cada cor e de diferentes comprimentos de onda* .




*Em árabe, a palavra tâmara significa dedo de luz.
* A luz, na forma como a conhecemos, é uma gama de comprimentos de onda
.


Estado de pintura: The Pussycat Dolls - Sway

16 de Novembro de 2009

261

Uma ideia engraçada para quem gosta de brincar com as palavras, na Fábrica de histórias.



Estado de pintura: St Germain - Sure Thing

Estados de pintura

Red Nails
pintado por Red
estórias, pinceladas e pinturas desastradas

red.nails@sapo.pt