Vou ouvir esta música até enjoar.
Quando a ouço, imagino-me deitada na minha praia sobre a areia molhada, devia ter cinco ou seis anos e os primeiros raios de sol da manhã a acariciarem-me a pele torrada. Ao meu lado o pequeno balde que não largava e que durante o dia enchia de amêijoas que apanhava nos meus longos e solitários passeios à beira-mar.
Não voltei a África mas devo lá ter deixado alguma coisa para além das bonecas, minhas companheiras inseparáveis das salas de aulas inventadas. A minha velha e austera professora primária, a quem eu imitava e detestava, já terá dado sonoras risadas lá do sítio onde deve estar que felizmente desconheço, por me ter silenciosamente incutido este bichinho que cedo nasceu comigo, de andar de caneta vermelha e dedo em riste a apontar erros e pregar sermões.
Os três boletins amarelecidos de passagem de classe do Colégio de Nossa Senhora dos Anjos, religiosamente guardados, vieram há uns meses parar às minhas mãos e deles se destacam o meu Comportamento porque do Aproveitamento nada consta. Três letrinhas apenas mas que deixavam a minha mãe feliz. Numa viagem a Portugal e de estadia mais prolongada, o primeiro período de um ano lectivo fora aqui concluído. De regresso ao meu país natal, a Madre Superiora, directora do Colégio, tivera a infeliz ideia de me questionar pelos meus gostos sobre o outro onde estivera.
Muito melhor – as outras blasfémias proferidas na altura ainda hoje me causam embaraço, o mesmo que causou à minha mãe que nem um buraco tivera para se enfiar. Talvez por isso, o quarto boletim não existe, ela deve-o ter rasgado.
A partir daqui nada mais foi igual. A primeira vez que pisei pés num liceu e como colegas de carteira passei a ter Maneis em vez das só e habituais Marias, a minha mãe passou a ter dores de cabeça acrescidas já às então habituais. A campainha da porta e o som estridente do telefone da nossa pacata casa nunca mais tiveram descanso, o meu gosto pela leitura era pretexto para investidas que ela dificilmente controlava e que a mim me divertiam. Tinha largado o balde e perdidamente apaixonada por um Rui que nunca mais na vida vira, pegou em mim e juntas fizemos viagem de muitas e longas horas para outro país africano, com a casa às costas ou o pouco que dela restava, para nos juntarmos ao meu pai e mana que lá nos aguardavam. Deste inferno de curta duração, fiquei a falar outra língua que não o Português. Nada mais a registar. E regressei definitivamente a Portugal.
Depois daquele, outros Rui(s) entraram e saíram da minha vida. Diferentes passeios se fizeram à beira-mar. Os peixes agora são outros e não há amêijoas que vislumbre, nem cheiro a maresia que me console. Mas colou-se-me um tal odor de canetas, cadernos e demais materiais que não há perfume de marca ou da loja dos chineses que o disfarcem. E vem este relambório todo porque sofro ultimamente de enjoos e se enjoar desta música talvez com este cure o outro que não provém de nenhum ciclo menstrual em atraso, tampouco de mal estar vesicular.
Estado de pintura: Skye - Jamaica Days