Rói-nos na alma o que nos foi omitido, se vivem ou se partiram para parte incerta, talvez para o Brasil e nos braços dumas mulatas se lambuzeiam e se encharcam em cachaça. Esmagamos o gelo como se lhes esmagássemos os tomates, no silêncio do nosso sofrimento e sorvemos as caipirinhas que outrora foram partilhadas. Mascaramo-nos de sorrisos, deprimimo-nos em vestidos de cores berrantes mas o verão vem e vai e o frio permanece. Até ao dia em que já nada mais nos importa e do Brasil ou da Antárctida onde realmente ansiávamos que estivessem a tenir de frio, regressam. E nem raiva, nem surpresa nem o diabo que os carregue, nem a vontade de lhes despejar com o gelo do nosso desapontamento, nem o rancor que gostaríamos de ter cultivado e como se nada se tivesse passado e ainda ontem tivéssemos tomado café ou estivéramos enrolados nos lençóis, perguntamos-lhes como estão. E parecem estar bem, os energúmenos, e nós também, rimo-nos muito, só não sabemos de quê. Já nos esquecemos. Pensamos que esquecemos. Desejamos ter esquecido.
Precisamos de um tempo de luto mas não há luto possível para o inacabado.

